As redes sociais e a polarização da sociedade

Assisti ao primeiro episódio de “O próximo convidado dispensa apresentação – com David Letterman” no Netflix, onde o convidado era o ex presidente do Estados Unidos, Barack Obama.

Interessante. Mas o que me chamou a atenção, foi o seguinte trecho, transcrito da entrevista (palavras de Obama):

Se você obtém toda a sua informação de algoritmos enviados por um telefone, ela reforça suas tendências (vícios) que são um padrão que se desenvolve.

Fizeram um experimento interessante. Não científico, foi só o experimento que alguém fez na revolução ocorrida no Egito, na Praça Tahrir. Pegaram um liberal, um conservador e um “moderado” e lhes pediram uma pesquisa no Google. “Egito, digitem”.

Para o conservador, apareceu “Irmandade Muçulmana”. Para o liberal, “Praça Tharir”. Para o moderado, apareceu: “Locais de férias no Nilo.”

….

E isso se reforça mais com o tempo. É o que ocorre com as páginas do Facebook, de onde as pessoas tiram suas notícias.

Até certo ponto, você está e uma bolha. Em parte, é por isso que nossa
política está tão polarizada.

De certa maneira, as redes sociais fazem com que você reforce seu pensamento e mantenha seus vícios, pois não recebe informações diferentes que poderiam “aprimorar” seus conhecimentos. A história de Obama provavelmente não é verdadeira, mas ilustra bem o problema (no início da entrevista ele fala como aprendeu com a esposa a se “comunicar” melhor com o povo – a história é uma boa forma de se fazer entender).

Isto faz com que não exista diálogo entre os grupos, o que acaba criando maior polarização (concentração de grupos de pessoas que pensam diferente – extremos opostos).

Durante as últimas década, a tecnologia moderna, como o rádio, a televisão, as viagens aéreas e os satélites, teceu uma rede de comunicações que põe cada parte do mundo em contato quase instantâneo com todas as outras. Ainda assim, em que pese esse sistema mundial de ligações, há neste exato momento, um sentimento generalizado de que a comunicação está se deteriorando em toda parte, numa escala sem precedentes. As pessoas que vivem em diferentes países,  com sistemas políticos e econômicos diversos, são muito pouco capazes de falar umas com as outras sem brigar. E dentro dos limites de uma única nação, as diferentes classes sociais, econômicas e os grupos políticos caíram num padrão semelhante de incapacidade de entendimento mútuo (BOHM, 2005, p. 27).

Se você recebe sempre as mesmas informações, passa a existir um reforço, um vício, e isso acaba por lhe cegar sobre novas possibilidades. Você passa a negar qualquer informação que refute ou ponha em questão a sua verdade, por exemplo, como ocorre com a “sociedade da terra plana“.

Na entrevista, Obama cita a frase de um senador de Nova York, Daniel Patrick Moynihan: “O senhor pode ter a sua própria opinião, mas não pode ter seus próprios fatos.”.

Obama citou esta frase, pois estava argumentando que a maior dificuldade com a democracia é que não compartilhamos  uma base comum de fatos. “Nós estamos operando em um universo de informações completamente diferentes”, disse Obama.  “Se você assiste a fox news, você vive em outro planeta, do que se ouvir a rádio NPR”.

A disciplina da aprendizagem em equipe envolve o domínio das práticas do diálogo e da discussão, as duas formas distintas de conversação entre as equipes. No diálogo, há a exploração livre e criativa de assuntos complexos e sutis, uma profunda “atenção” ao que os outros estão dizendo e a suspensão do ponto de vista pessoal. Na discussão, por outro lado, diferentes visões são apresentadas e defendidas, e existe uma busca da melhor visão que sustente as decisões que precisam ser tomadas. Diálogo e discussão são potencialmente complementares, mas a maioria das equipes não tem habilidade de distinguir um do outro e de passar conscientemente de um para o outro (SENGE, 2009, p. 290).

 

Se todos compartilharmos um significado comum, participaremos juntos. Tomaremos parte no significado coletivo – da mesma forma que as pessoas se alimentam juntas. Participaremos, comunicaremos e criaremos um significado que é de todos, o que quer dizer tanto “compartilhar” como “fazer parte de”. Isso significa que surgiria uma consciência comum dessa participação, que nem por isso excluiria as consciências individuais. Cada indivíduo sustentaria sua opinião, mas esta seria absolvida também pelo grupo. (BOHM, 2005, p. 66).

Ou seja, através do diálogo podemos acrescentar informações à nossa percepção da realidade e isso molda nosso conhecimento. Ainda podemos continuar discordando em alguns pontos, mas é importante que tenhamos compreensão sobre estes pontos de discórdia.

Em um livro notável, Physics and Beyound: Encounters and Conversations, Werner Heinsenberg (formulador do famoso “Princípio da Incerteza”, na física moderna) argumenta que “a ciência tem suas raízes nas conversações. A cooperação de diferentes pessoas pode culminar em resultados científicos da maior importância.” Heisenberg recorda-se então de longas conversas com Pauli, Einstein, Bohr e as outras grandes figuras que destruíram e remodelaram a física tradicional na primeira metade deste século”. Essas conversas, que, segundo Heisenberg, “tiveram efeito duradouro sobre meus pensamentos”, literalmente deram origem a muitas das teorias em razão das quais esses indivíduos vieram as e tornar famosos.

O princípio da complementariedade de Niels Bohr é fundamentado em uma situação em que os fatos divergiam, assim como as opiniões. As discussões partiam do pressuposto que o átomo comportava-se como partícula e também como onda. De acordo com Heisenberg (2005) para alguns físicos, principalmente para Schrödinger, somente a ideia do comportamento de onda era aceitável, enquanto para outros, como Bohr e Heisenberg, a ideia do comportamento de partícula prevalecia, pois o fenômeno podia ser observado. As teorias foram discutidas, até que Bohr percebeu que ambas existiam e eram complementares (HEISENBERG, 2005, p. 95)

Você esta preparado para compreender percepções da realidade diferentes das suas?

Veja Também:

Heisenberg, Werner. A Parte e o todo.

O Conhecimento do Observador Sobre o Sistema Observado

BOHM, David. Diálogo. São Paulo: Palas Athena, 2005. 178p.

HEISENBERG, Werner. A parte e o todo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. 286p.

SENGE, Peter. A Quinta Disciplina. São Paulo: Best Seller, 2009. 530p.